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Bruno do Nascimento
Diário de Petrópolis
24/08/03
Em sua palestra em maio passado, no LNCC, no II Seminário Água é Vida, o Frei Ludovico Garmus disse: "A terra é produto, tanto como o sol, de reciclagem. Já aí a natureza nos ensina que a nossa sobrevivência aqui também no planeta, é preciso saber reciclar. Os cientistas nos dizem que se os biólogos examinarem uma rocha qualquer, perceberão nessas rochas que ali já existiu vida. Na evolução, aquilo que era rocha se transforma em vida e a vida acaba voltando à rocha. Como diz a bíblia, tu és pó e ao pó hás de voltar".
A introdução da palestra do Frei Ludovico Garmus sobre educação ambiental voltada para a água, demonstra uma preocupação permanente que os religiosos têm com a natureza e o quanto estão antenados com a situação dos recursos naturais. Na realidade, segundo o Frei Ludovico Garmus, religião e ciência não se contradizem e diante de tanta poluição gerada pela revolução industrial está na hora de se educar melhor as populações para que possam melhor viver sem poluir.
A participação da Igreja Católica relacionada ao meio ambiente já vem de muito tempo. São Francisco de Assis é considerado o padroeiro dos ecólogos, dos ecologistas, dos ambientalistas e ele tem um cântico que compôs no final de sua vida "Cântico do irmão sol" e nesse cântico ele tem uma estrofe muito interessante, diz assim: "louvado seja, meu senhor, meu irmão vento, e ar nublado ou sereno, por todo o tempo, pelo qual as tuas criaturas dá sustento. Louvado sejas meu senhor, pela irmã água, a qual é muito útil, humilde, preciosa e casta".
A Igreja sempre desenvolveu campanhas para educar a população. Em 1979 a igreja participou de uma campanha da fraternidade, que foi o primeiro esforço da conscientização das comunidades cristãs católicas. Essa campanha também é feita com outras igrejas evangélicas, tornando-se um trabalho ecumênico. O tema da campanha da fraternidade para 2004 será exatamente fraternidade e água. O lema é Água com Cidadania. A função da campanha é conscientizar a sociedade que a água é fonte de toda a vida e o acesso a ela é o direito de todos os seres vivos, sobretudo dos seres humanos e, sobretudo, mobilizá-la para que esse direito a água seja efetivado para as gerações presentes e futuras.
São objetivos específicos da campanha: defender a água como patrimônio da humanidade e de todos os seres vivos, sob o controle do estado e não nas mãos de particulares, que vão transformá-la em mercadoria e com a participação da sociedade e das comunidades locais; conhecer a realidade hídrica no Brasil, a partir da realidade local; resgatar a dimensão sagrada da água e desenvolver uma mística ecológica; apoiar e valorizar as iniciativas já existentes no tocante à água (preservação das margens, captação das águas pluviais, recuperação de mananciais degradados, defender a participação popular na elaboração de uma política hídrica para que a água de fato seja de domínio público, que seja gerenciada pelo poder público com a participação de entidades civis e da comunidade).
O Frei Ludovico Garmus lembra que de fato existe escassez de água no mundo. "Na China nós temos talvez umas 50 cidades que estão passando sede, falta de água. Em São Paulo, nos anos 98 e 99, o racionamento de água, quase duas a três vezes por semana. Então o problema existe, mas diz a ONU que faltará água a 40% da humanidade, até o ano 2050, e especialistas antecipam esse prazo para 2025. Essa escassez de água no Brasil é inexistente, porque somos um país privilegiado, falava-se em 18% de toda a água doce do mundo, outros falam de 15%. Não falta água aqui no Brasil, é apenas um pouco mal distribuída, em algumas regiões há menos e em outras mais".
A todos esses problemas soma-se também a ação do homem através das práticas de irrigação na agricultura intensiva e industrializada com um alto nível de desperdício, inclusive já se fala que 63% da água doce no Brasil está sendo consumida pela irrigação e com esbanjamento. A salinização da água subterrânea; a poluição e contaminação causada por atividades industriais e pelas formas inadequadas de gerenciamento do lixo urbano; o intensivo uso dos recursos hídricos, devido ao sistema ineficiente de produção e consumo de água; multiplicação irresponsável das grandes barragens, que hoje são desaconselhadas; efeitos em longo prazo de catástrofes naturais, resultantes da ação humana, poluição do ar. De acordo com o Frei Ludovico Garmus não adianta apenas nos preocuparmos com a despoluição das águas. "O lixo também polui, e polui muito. Temos que caprichar na coleta do lixo, na pureza do ar, se queremos ter água pura. Não adianta nada fazermos todo o esforço de purificarmos a água se continuarmos a jogar lixo, não tratando o lixo e poluindo o ar, além dos poluentes químicos que produzimos. Nunca tinha visto uma enchente com 3m aqui no rio Quitandinha, mas em frente ao Instituto Teológico deu 3,45m. Isso é fruto de nosso desequilíbrio".
Para o Frei Ludovico existem três tipos de relacionamentos com a natureza: "a posição de simples sujeição à natureza; uma outra posição é a harmonia com a natureza; o terceiro é o domínio sobre a natureza". Ele chama a atenção para onde os educadores ambientais devem interferir que é exatamente na visão de mundo que as pessoas têm. "A visão de mundo começa com o melhor conhecimento do que é nossa vida aqui na terra. Passar para a ação política. A companhia deveria ser obrigada a coletar lixo selecionado. Estamos muito longe de uma educação na questão do lixo. Esse quadro mostra onde a Igreja, as entidades e as Ongs, entidades civis devem agir: é na formação de uma nova consciência, uma nova visão de mundo, onde nós somos parte da vida. Não somos os dominadores".
A mudança do homem sobre a Terra é tão grande que até existe uma charge nos intervalos da TV Globo em que é proposto o XI Mandamento da Lei de Deus: Não Poluirás.
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