
Bruno do Nascimento
Diário de Petrópolis
24/08/03
Acontecerá no dia 24 de setembro (2003), no Palácio de Cristal, Centro de Petrópolis, uma palestra com o pesquisador Aldo Rebouças sobre a situação das águas subterrâneas no Brasil.
A palestra é um desdobramento do XIII Encontro Nacional de Perfuradores de Poços e do I Simpósio de Hidrogeologia do Sudeste que estarão sendo promovidos pela Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), e com o apoio do governo do estado do Rio de Janeiro, DRM-RJ, CREA-RJ, Prefeitura de Petrópolis Movimento de Cidadania pelas Águas e do Petrópolis Convention & Visitors Bureau (PC&VB) e que acontecerão no Palácio Quitandinha, no período de 23 a 26 de setembro de 2003.
Para esclarecer melhor sobre a situação das águas o Diário de Petrópolis fez uma entrevista com o pesquisador Aldo da Cunha Rebouças, Professor Titular do Instituto de Geociências da USP e um dos autores do livro Águas Doces no Brasil, Capital Ecológico: Uso e Conservação.
DP: Há quanto tempo o Senhor lida com a questão da água no Brasil?
Aldo Rebouças: Desde 1963, portanto há 40 anos.
DP: Qual a situação das águas hoje no Brasil? A população tem a disposição uma água de qualidade?
Aldo Rebouças: O Brasil ostenta a maior descarga de água doce nos seus rios. Dividindo-se esses potenciais pela população atual de 170 milhões de habitantes (IBGE, 2000), tem-se que cada brasileiro, na classificação das Nações Unidas, é rico de água doce, pois dispõe da ordem de 34.000 m3/ano per capita, enquanto as Nações Unidas consideram 1.000 m3/ano per capita como suficiente para usufruto do conforto da vida moderna, em condições de clima árido. Tem-se mais da ordem de 4.000 m3/ano per capita, correspondentes a utilização de 25% apenas das taxas de recarga das águas subterrâneas.
DP: O que deveria ser feito no Brasil para melhorar este quadro?
Aldo Rebouças: O cidadão brasileiro precisa ser informado, ao máximo, esta situação de abundância de água e ensinar a usar de forma cada vez mais eficiente a gota de água disponível, reduzindo-se os grandes desperdícios nas cidades onde ainda se utilizam bacias sanitárias que necessitam de descargas que consomem 18-20 litros, quando se tem modelos no comercio que necessitam de apenas 6 litros, banhos longos, sistemas sanitários obsoletos, etc.
DP: O Senhor escreveu o livro Águas Doces do Brasil: Capital Ecológico, Uso e Conservação (Editora Escrituras), que vem sendo considerado um marco na descrição do assunto. Como é contribuir para uma mudança de cultura sobre a situação das águas no Brasil?
Aldo Rebouças: O Livro Águas doces no Brasil, Capital Ecológico: Uso e Conservação, tinha por objetivo principal proporcionar dados que possibilitassem o conhecimento desta situação, uma vez que todos os dados disponíveis eram encontrados nos organismos internacionais. É gratificante já ter que partir para uma 2a Edição, sobretudo quando se ver que o principal objetivo é o que mais provoca perguntas. Outro motivo de sucesso do livro é o elenco de autores abordando os pontos mais polêmicos do problema da água no Brasil.
DP: Os investimentos no setor de saneamento tem tido um efeito positivo para a melhoria da qualidade das águas? Como o Senhor vê o processo de privatização do saneamento no Brasil?
Aldo Rebouças: O setor do saneamento básico é o mais sensível no Brasil, possibilitando caracterizar que a principal arma contra a privatização é a eficiência das empresas públicas, estatais ou privadas. Regra geral, têm faltado investimento público no setor, mas o problema não é de falta de água, mas da pobreza da população, uma vez que o PIB per capita nos países que usufruem da universalização dos serviços - cerca de 90% da população servida e 80% do esgoto coletado e tratado - é superior a US$ 20.000. Quando o PIB per capita no Brasil é da ordem de US$ 3.000 pode-se imaginar as dificuldades em atrair capital internacional para privatizar o setor. Desta forma, apenas nas grandes cidades o processo parece viável, uma vez que apenas 30% da população pode pagar pela prestação do serviço. Como resolver o problema de saneamento básico nas favelas, por exemplo, se nas vielas e becos não há espaço para instalação de um cano de água, de um cano de coleta dos esgotos e o caminhão de coleta do lixo não pode sequer circular.
DP: Uma cidade como Petrópolis, numa região de serra, com uma população de cerca de 300.000 habitantes, onde apenas 20% têm seus esgotos coletados, pode vir a ter o seu lençol freático contaminado pelo lançamento do esgoto nos rios ou em fossas sanitárias?
Aldo Rebouças: Uma cidade como Petrópolis, pode ter o seu lençol freático, isto é, o nível mais raso de acumulação de água subterrânea, comprometido pela falta de saneamento básico, à medida que vai proliferar o poço escavado e a fossa sanitária. Por sua vez, a topografia favorece este tipo de saneamento básico. Regra geral, todo poço ou captação de água subterrânea na área urbana, necessita ter uma proteção sanitária. Isto poderia ser obtido mediante a distância de 20 a 30 metros entre o poço e a fossa, ou por cimentação para isolamento do primeiro nível de acumulação de água no subsolo.
Para Aldo Rebouças, o quadro sanitário nas principais cidades do Brasil é dos mais vexatórios e constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento social do País. A Organização Mundial da Saúde (OMS) assinala que o investimento de um dólar em saneamento básico representa uma economia de US$ 4-5 nas despesas de tratamento das doenças. Não obstante, o problema não merece qualquer prioridade dos poderes da República - Executivo, Legislativo e Judiciário - dos políticos ou dos partidos.
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