
Cyrley Leoni Martins
Diário de Petrópolis
24/08/03
Aos cinco anos, eu não conhecia o significado da palavra paraíso. Eu só sabia que havia um cantão muito especial onde eu morava e esse nome me soava com um respeitável mistério. Lá, eu só podia ir acompanhada de um adulto.
A trilha de acesso ao Paraíso era bem cuidada, margeada por um barranco ricamente coberto por grande variedade de flores e plantas ornamentais. Periodicamente era até varrida com vassoura de bambu. Terminava numa escadinha de pedras arredondadas, cobertas de musgo abrindo para uma área fofa de folhagens e areia. E maravilha! Um salão na mata. Um salão de festa, com muitos sons divinamente orquestrados! Era só parar e apreciar. Um visual assustadoramente deslumbrante, desafiador e mágico.
No meio do salão corria muita água, em todas as direções, fazendo desenhos mutantes a cada impacto ou cumplicidade com as pedras coloridas e multiformes daquele riacho. O clamor das quedas. A doçura dos pequenos remansos. As borboletas, insetos coloridos e principalmente as "almas de padres" (como chamávamos as libélulas) coloridas, ágeis, dançarinas incansáveis. As pedrinhas miúdas eram o meu deleite. Caracóis grandes e vermelhos, arrastavam-se à sombra da vegetação com seus chifrinhos esticados. Os sapos entoavam a sua cantiga, por meio de uma alucinante bateria. Muitos sabiás, muito tico-tico, muita rolinha, muitas garrinchas, muitos beija-flores e muitas, muitas flores e a festa dos peixinhos do rio. Por entre os seixos fantásticos, havia trilhas opcionais com pedras estratégicas para a gente usar como passarela pulando com perninhas curtas. Se errasse, caia dentro d'água... Sempre geladinha! E podia até ter sorte de não ficar com o joelho ralado.
Muito mais tarde, eu conclui (porque os adultos não imaginam que a gente não nasce sabendo) que aquela enorme piscina verdíssima, onde eu não podia nem chegar perto era a represa da água daquele riacho.
Quando chovia eu dava um jeitinho de ir lá ver o que se modificava na dinâmica do paraíso. A montanha jorrava borbotões dourados e espumantes rio abaixo. Que barulheira! Que festa!
Mas o mistério continuava. O riacho entrava num boqueirão de mato à direita, descia e sumia.
Aos vinte anos eu ainda sentia um cheiro muito especial e a minha cabeça dava uma volta completa quando eu ouvia a palavra paraíso. E ainda me entristecia quando lembrava de uma poesia intitulada "O anãozinho verde", que morreu afogado. Teria sido no paraíso ou na piscina natural?
Aí eu aprendi a nadar. Era um desafio premente da minha vida: ser capaz de mergulhar naquela piscina verde e misteriosa que um dia me encheu de tanto medo.
Hoje, quase aos 60 anos, acho que todas as crianças precisam de brincar muito com água, bacia, mangueira, regador, riacho, pocinho e aprender a lidar com a água, tanto quanto a conhecer e respeitar esse presente da natureza.
Essa foi a lição que eu aprendi no Paraíso, um salão florestal, cortado por um belíssimo riacho de Araras, em Petrópolis.
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