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O Jornalista Luiz Peazê publicou um texto especial para o II Seminário Água é Vida, na Tribuna de Petrópolis, em maio de 2003. A seguir a integra do texto. Maiores informações podem ser obtidas no site: http://www.luispeaze.com
Luís Peazê
Passamos a nós mesmos um atestado de idiotas quando admitimos que a água é um fator de vida ou de morte somente após 2003 anos depois de Cristo, para não retroagir mais ainda. Ou, sejamos realistas, 31 anos, desde a Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, 1972, quando o meio ambiente foi incluído na agenda internacional, e vinte anos à frente, na ECO-92, no Rio de Janeiro, quando eclodiu a consciência e disposição das instituições governamentais para a perspectiva agravante da ecologia global.
O aquecimento ascendente da Terra, os buracos na camada de ozônio, os desmatamentos das reservas florestais, a extinção de espécies da fauna silvestre, a poluição nas grandes cidades, a precariedade do saneamento básico nos países pobres, a necessidade de manejo, uso apropriado e risco de escassez da água potável, o assoreamento de rios, lagoas e baías, e por conseguinte o empobrecimento das bacias hidrográficas, incluindo os lençóis freáticos, os aqüíferos e suas recargas, o capeamento irracional do tecido urbano dado o crescimento desordenado das cidades e comunidades carentes em proporções multitudinárias, tornando áreas antes úmidas em terrenos áridos, destruindo a cadeia alimentar biológica natural; o empobrecimento das terras de zonas rurais pelo tipo de irrigação (e desperdício de água) nem sempre adequado, e pelo uso agressivo de agrotóxicos e sua contaminação das águas de superfície e subterrâneas, mais recentemente pela inserção em escala da produção dos transgênicos, e, com respeito às águas costeiras, o problema da introdução de espécies patógenas em ecossistemas estranhos pelas águas de lastro dos navios cargueiros, tudo isso interferindo de maneira dramática no equilíbrio ecológico e na saúde dos seres vivos, animais, vegetais e seres humanos, tudo tem a ver com a água, e garante que não é mais concebível qualquer atividade humana, produtiva ou de lazer, de entretenimento e, especialmente, educativa que não inclua forte apelo ecológico, de responsabilidade social. E, aproveitando um efeito cascata, se pudermos objetivar uma utopia, ela seria a Ecologia do Ser.
Desequilibrados individualmente, excluídos ou desconectados da consciência social, não passamos de uma gota contaminada neste oceano de complexidade em que nos metemos na pressa de evoluirmos, viciados nas drogas do marketing de massa, que tende a criar necessidade em escala para vender o mais rápido e ao maior número de consumidores possível. Daí desaguamos na globalização e isso também tem a ver com a água. No final do dia temos que nos alimentar, e comida é, como o nosso próprio corpo, água em proporção essencial. Um ser humano pode ficar 40 dias sem comer mas não resiste mais do que sete dias sem água. Não é por nada que dois dos maiores gigantes de alimentos e bebidas, a Coca-Cola e a Nestlè, estão dentre as poucas entidades mundiais que têm mapas geológicos plotando os recursos hídricos do planeta, sua matéria prima fundamental.
Daqui a pouco iremos celebrar o segundo centenário da abolição da escravatura, mas ainda somos uma república incompleta. Declaramos a independência, mas colocamos o filho do rei como nosso imperador e até hoje os políticos se tratam entre si de nobre deputado, nobre senador e assim por diante; abolimos a escravatura e ainda não temos cota cem por cento para que os negros tenham acesso à educação; evoluímos economicamente, mas não distribuímos a renda igualitariamente; somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas ainda estamos planejando um programa de fome zero para uma polulação que morre na ordem de duas crianças por hora por subnutrição ou morte relacionada a precariedade sanitária, qualidade da água inclusa; somos enfim, um país incompleto, ha quinhentos anos. Portanto, a água, o primeiro bem comum do ser humano, é um fator de vida, de inclusão social ou de morte, sem o que não adianta se discutir qualquer outro fator, ou política.
Se da conjuntura econômica mundial não podemos escapar, já é tarde e não podemos mais tolerar que executivos de temporada, assentados nos gabinetes do ministério da saúde, do meio ambiente, das minas e energia e mais recentemente das agências reguladoras, decidam as prioridades de nossa agenda alimentar diária. Precisamos beber água, e água boa, e pagar o mínimo necessário para obtê-la em nossos filtros domésticos.
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